Esse é um texto provavelmente fictício. situações, nomes e pequenas omissões devem ser encarados como detalhes dramáticos. Caso você reconheça alguma personagem e/ou lugar, entenda que poderá ser mera coincidência.

Era um sábado, umas 16:30hs.

O sol tava fritando a cabeça. A cerveja, a terceira pelas minhas contas, estava sendo aberta naquele instante. Quando chegou no buteco o Jonas¹, com o convite. Perto dali, num bairro de periferia, estava acontecendo uma festa de alguns traficantes. Segundo ele, não deveriamos perder aquilo porque “o funk estava comendo solto e as cachorras estavam no cio!“, palavras dele. Você poucas vezes imagina o que é uma festa na periferia. Obviamente, você não pode simplesmente chegar numa festa na rua e começar a se divertir. Se você não conhece ninguém do lugar, eu não recomendaria que você aparecesse do nada. E nada do que eu tinha vivido até aquele momento me preparava para aquilo que eu ia viver nessa tarde de sol em Sampa.

No caminho, avistamos uma viatura da Força Tática. Pra quem não é de Sampa e não conhece, essa é aquela viatura que os bandidos cruzam e temem. Eu nunca costumei prestar atenção em polícia na rua, mas naquele dia eu estava meio assim. Porém, foi a última viatura que eu vi no dia e ainda estavamos a alguns quarteirões da festa. Continuamos na peregrinação e fomos adiante.

Você sabe que ta na periferia de São Paulo quando você vê alguns caras andando de CG sentados no banco na parte de trás, numa posição que parece incrivelmente incômoda pra pilotar. Boné com aba reta e camisas largas geralmente completam o visual. Quando você cruza com mais de 2 desses andando juntos, você sabe que está num lugar onde a paz, na teoria, impera. E foi um motivo de alívio ver que na esquina da rua estavam paradas mais de 20 CG’s, algumas com placa, outras sem, verde, azul, roda estrela, raios trançados, escapamento barulhento… tinha literalmente pra todos os gostos. Próximo delas, algumas crianças com bicicletas tentavam empinar, sem se preocupar com a presença de carros que teimosamente insistiam em passar por aquela rua, que naquele momento estava com 3/4 do espaço ocupado por motos, crianças, cachorros, pessoas e pessoas. Enfim, tinhamos chegado ao local e estavamos prontos pra encarar aquilo de frente.

Como disse antes, não é bom chegar num lugar desses sem conhecer ninguém. E ao entrarmos na rua, que estava fechada com cavaletes de um lado e uma kombi atravessada pelo outro, fomos em busca do nosso contato. Nego Alemão, um dos patrocinadores da festa. Um jovem com os cabelos pintados de amarelo quase branco, com dois nextels pendurados no pescoço, 2 correntes de prata e um nike colorido nos pés. Aliás, você pode facilmente passar por um “local” se estiver com uma corrente de prata e um nextel no pescoço, perdi as contas de quantas pessoas com essas características eu vi por lá.

Em uma das casas, no quintal, era servido o chopp. Na verdade, eram 3 as casas que serviam de bar alternativo. Mas em apenas uma delas havia um grupo dentro. Nesse grupo, estava nosso contato e nos dirigimos a ele, mas não sem antes sermos parados por 3 caras, seguranças dele, que estavam na porta cuidando de tudo. É incrivelmente estranho ver pessoas armadas nessas condições, mas você não pode demonstrar nenhum tipo de insegurança nessas horas. Com a autorização devida, conseguimos cumprimentar Nego Alemão, que ainda fez questão de nos servir chopps (extremamente gelados, melhores que os de certos bares por ai) enquanto cumprimentava um ou outro que passava por ali. O cara realmente é popular naquela região.

Quando todo mundo se conhece mas ninguém te reconhece, olhares curiosos são inevitáveis. Quando isso acontece em situações como essa que estou narrando, é praticamente impossível não se sentir incomodado. Porém, após sermos vistos falando e fazendo piadas com um dos donos do lugar, a curiosidade das pessoas se vai e elas voltam seus olhares para outros acontecimentos. E os nossos olhares também passeavam pelo lugar, geralmente encerrando aquela panorâmica sempre na mesma esquina, onde 7 garotas com pouquíssima roupa não ligavam para o frio e rebolavam freneticamente ao som das batidas das caixas de som. Porém, em todo lugar existem regras e não seria seguro ficar mais de 10 segundos direto olhando fixamente para aqueles micro-shorts rebolativos.

Uma outra coisa que marca a periferia são as garotas. Elas simplesmente não encontram problema algum em mostrar o corpo, mesmo que o mesmo esteja um pouco fora de forma. É normal ver gordinhas, magrelas e algumas extremamente gostosas com a barriga de fora, com uma saia curta, com shorts apertadíssimos. E estando numa festa com a temática funk no ar, elas estavam aos bandos circulando e dançando sem pensar no amanhã. O clima de euforia tomava todas as pessoas que atravessavam aquela rua, naquele dia. Nem mesmo as senhoras mais velhas deixavam de sorrir e se divertir. Por instantes, você meio que sem querer acredita que todos os problemas do mundo tem solução. E que as pessoas, no fundo, só querem ser felizes.

Antes de anoitecer, fomos embora. Nego Alemão agradeceu pessoalmente nossa presença, e dizia para voltarmos mais vezes, pois naquele dia específico ele estava sem tempo. “É tudo nosso!” e “Valeu, chapa!“, aperto de mão e entramos no carro. E diferente de outras vezes, dessa vez eu achei melhor que não tivessem ocorrido grandes aventuras, dadas as condições adversas.

Qualquer hora, voltaremos lá pra ver como é o dia comum dos caras. Com cerveja no buteco, cadeira de metal na rua e dominó rolando solto.

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Postagem feita no dia 14 de outubro de 2009 às 23:30 e arquivada na(s) categoria(s) Divagação. Você pode acompanhar os comentários usando RSS 2.0 .
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3 Comentários ;) para “Um rolê pela quebrada, pra clarear…”

  1. Rafael R on outubro 15th, 2009 at 2:32

    "Um rolê pela quebrada", relato de 1 dia na periferia – http://bit.ly/3LwJ7x

  2. Rafael R on outubro 15th, 2009 at 12:54

    "Um rolê pela quebrada, pra clarear…" http://bit.ly/3LwJ7x – uma incursão no cotidiano da periferia de sampa

  3. Rafael R on janeiro 23rd, 2010 at 8:43

    http://bit.ly/6rhlnA Um rolê pela quebrada, pra clarear

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