Para ler ouvindo:

(Pai, sei que você no começo achava música eletrônica um barulho sem fim mas agradeço todas as vezes que você topou ouvir até cansar e reclamar meus sets, durante as viagens que fizemos juntos)

A vida é curiosa.

Eu morava com meu pai, trabalhava com ele (eramos sócios de uma empresa) e aprendi 97% das coisas sobre a vida vendo-o agir, tomando broncas dele (que não pararam com o passar dos tempos) e vivendo na base do erro/acerto. E os últimos 6 meses ao lado dele me ensinaram algumas das coisas que pretendo por em prática assim que for oportuno.

Um dia antes dele falecer, no ano passado, ele estava no hospital ainda. Mas tudo o que ele queria era estar em casa. Já estava bem abatido e fraco, mas tinha a certeza de que naquele hospital ele não ficaria melhor do que em casa. O médico era contra, claro, mas não tinha como negar um pedido que soou como uma ordem do meu pai: “Me leva pra casa!”.

Nos meses anteriores, nossa rotina foi acrescida de uma tarefa: Ir de Atibaia até Bragança Paulista, no Hospital Universitário. Entre exames, tratamentos e consultas, nós tivemos belas conversas. Sobre a empresa, sobre a vida, sobre coisas importantes e conversas sem o menor sentido. Não posso reclamar, tive uma oportunidade maior de passar com ele os que seriam seus últimos meses de vida. E como valeu a pena cada momento de dor, cada momento emocionado, nervoso ou de raiva pura mesmo. Como valeu a pena viver com ele seus últimos momentos.

Então, estamos no hospital naquele impasse: O médico recomenda que ele fique, ele me pede já ansioso para ir pra nossa casa. Não tinha como recusar uma ordem direta do velho. Se eu tive ou tenho um ídolo na vida é ele. Era hora de finalmente retribuir novamente por todo o carinho e respeito que aquele relacionamento guardava. Pedi ao médico a liberação e fui prontamente atendido.

No geral, o caminho de no máximo 20 minutos era feito com sonhos, promessas e metas. Estávamos sempre planejando ou executando algo na empresa e esse caminho era guardado para as explicações e palavras. E acho que essa última viagem foi a única exceção.

Com muita dor, ele se queixou desde o momento em que fui ajuda-lo a sentar no banco do passageiro. Mas estava aliviado ao menos, por poder sair daquele hospital e ir pra casa que ele escolheu. E saímos, eu meio sem jeito pra dirigir dando a impressão de que era um novato dirigindo e ele ali, suportando fortemente as dores. Ele não precisou falar “corre!” pra eu perceber que ele precisava mesmo chegar rápido em casa. E eu corri. Em 9 minutos estávamos em casa e eu pude ajuda-lo a sentar-se no seu cantinho, uma cama separada que deixamos na sala mesmo, pela facilidade de se deslocar para os outros ambientes da casa.

Eu não sabia que ia perdê-lo logo após isso. Eu sequer imaginava isso, apesar de saber que ele já estava bem debilitado com a agressividade do câncer. Mas eu estava lá, realizando um de seus últimos desejos. E o fiz com a certeza de que depois de tantos anos de história, parceria e broncas, estava deixando ali um amigo que ficou satisfeito em ter seu pedido realizado.

Sinto uma saudade que talvez jamais eu consiga colocar em palavras. E espero que hoje, um dia dos pais atípico pra mim, duas coisas aconteçam:

1. Que você, meu pai, tenha a certeza que todos os seus pedidos e conselhos foram assimilados por todos os seus filhos. Cada um, a sua maneira, está e continuará lutando para que seus ensinamentos e broncas não tenham sido em vão. Você foi competente nesse quesito e espero de verdade que sinta-se orgulhoso pelos passos de cada um deles. E as vitórias ainda virão aos montes, então estaremos celebrando juntos da forma que for por cada uma delas.

2. Que você, que de alguma forma se envolveu com a história e ainda tenha seu pai em casa entenda a importância da família na vida da gente. Sei que cada família tem as suas próprias particularidades mas também sei que família mesmo é aquela que a gente escolhe ter. Sejam felizes com as suas.

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Postagem feita no dia 12 de agosto de 2012 às 14:38 e arquivada na(s) categoria(s) Divagação. Você pode acompanhar os comentários usando RSS 2.0 .
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Opa, ja temos 1 para “Como realizei o último desejo do meu pai, quando pude fazê-lo”

  1. Nayara on agosto 12th, 2012 at 15:19

    Lindo texto! Não há nada melhor do que a satisfação de poder ter ajudado nos últimos momentos de uma pessoa tão querida.

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